"A coisa toda começa, muitas vezes, na mesa de jantar de casa. Diante de perguntas impertinentes, alguns pais reagem com um sonoro "cala a boca", como se os questionamentos desafiassem sua autoridade revestida de suposto saber. Mais tarde, na escola, não são muitos os professores abertos ao livre debate de ideias.
Somos uma sociedade de tradição autoritária, que vai da vida cotidiana aos meandros do poder público. Por isso mesmo, volta e meia nos vemos diante de discussões sobre proibir tal música, determinar que piadas podem ou não ser ouvidas pelo público, tirar shows do ar e assim por diante.
O assunto volta à pauta agora por conta da polêmica presença do CQC (programa de TV que mistura humor e jornalismo) nos corredores da Câmara dos Deputados e do Senado, o que atiçou a tendência de muita gente à censura. É fato que o CQC comete alguns excessos e por vezes recorre a um certo populismo na abordagem dos temas políticos.
Mas as entrevistas realizadas com deputados e senadores incomodam, cutucam e oxigenam o debate exatamente por não se prenderem aos limites da formalidade.
Até o deputado que "se lixa" para a opinião pública, Sérgio Moraes (PTB-SP), foi à tribuna para pedir à presidência da Câmara "providências" contra as "perguntas ofensivas" do CQC, como mostrou o Destak na segunda-feira. O presidente do Senado, José Sarney, recorreu ao argumento da falta de "respeito à instituição" ao ameaçar cassar as credenciais do programa na Casa.
E aí não há como não se lembrar do pai autoritário que prefere um "cala a boca" a, até mesmo, reconhecer que errou ou que não tem todas as respostas. Num caso e no outro, autoridades que se legitimam apenas e tão somente pela posição, pelo cargo, e não pelas atitudes e pelo comportamento.
O quanto uma sociedade cai na tentação do "cala a boca", assim como o quanto aqueles que detêm o poder (em casa, no trabalho, no governo) aceitam que as mais diversas opiniões circulem livremente, mesmo tendo de ouvir críticas e "engolir sapos", demonstra o grau de desenvolvimento de um país.
Nesse aspecto, pelo menos, precisamos nos espelhar nos Estados Unidos, onde esse é um valor fundamental. Nós, acredito, estamos no meio do caminho, melhor que alguns de nossos vizinhos na América Latina, nos quais recorre-se com frequência à censura de forma mais desavergonhada.
Pelo jeito, o 'cala a boca', por aqui, não morreu, mas também não vai lá muito bem de saúde. Sou otimista." - Fernando Leal
Fonte: http://www.destakjornal.com.br/readContent.aspx?id=18,39645


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